Code Vein 2 | O ‘anime soulslike’ cresce em ambição, mas tropeça por tentar demais — ANÁLISE

0
149

O primeiro Code Vein sempre foi aquele jogo com uma promessa irresistível: um soulslike com estética anime, foco em companheiros e um sistema de builds extremamente flexível. Em 2019, porém, a execução oscilava entre charme e falta de polimento.

Agora, em Code Vein 2, a sensação é a de um estúdio que entendeu o que funcionava e decidiu aumentar o volume: mundo maior, mais ferramentas de combate, mais sistemas e uma narrativa mais ambiciosa.

No PC, o resultado é, na maior parte do tempo, uma experiência bem mais prazerosa do que a do antecessor. Ainda assim, o jogo carrega vícios difíceis de ignorar — especialmente em clareza de combate, variedade e ritmo.

A premissa: um reset narrativo com viagem no tempo

Uma decisão acertada foi tratar Code Vein 2 como uma experiência mais independente. Ele reaproveita conceitos, termos e o “clima” do universo, mas não exige que você tenha jogado o primeiro para acompanhar a história.

A trama se passa em um presente pós-apocalíptico e gira em torno de uma missão que mistura viagem no tempo com um dilema moral incômodo: você conhece personagens no passado, cria laços com eles e, mais tarde, precisa enfrentá-los no futuro por um suposto “bem maior”. No papel, é um gancho forte — e, em vários momentos, ele realmente funciona.

A estrutura de retornar ao passado para destravar confrontos no presente ajuda a criar uma boa sensação de progresso e propósito. O problema está na execução da escrita, que oscila bastante. Há momentos de carisma e forte identidade de JRPG, mas também excesso de exposição, diálogos longos demais e tentativas de emoção que nem sempre se sustentam.

Mundo aberto: mais liberdade, nem sempre mais densidade

A mudança mais visível é o salto para um mundo aberto. Quando o mapa finalmente se expande de verdade, a exploração pode ser recompensadora, com segredos, rotas alternativas, atividades paralelas e uma sensação de jornada muito mais ampla do que no jogo anterior.

Por outro lado, há uma crítica recorrente: apesar de grande, o mundo pode parecer vazio em vários trechos. Existem áreas longas com pouco interesse real, o que gera aquela sensação de “espaço demais para coisa de menos”. Isso pesa ainda mais quando o ritmo é interrompido por diálogos extensos ou trechos expositivos.

No PC, esses problemas são um pouco menos incômodos quando o desempenho ajuda a manter a fluidez, mas densidade de conteúdo não se resolve apenas com bom framerate. Code Vein 2 não tenta ser um “Elden Ring da Bandai” — ele tem identidade própria —, mas ainda carece de consistência.

Combate: divertido, agressivo… e às vezes injusto

O combate segue a cartilha dos soulslikes: gerenciamento de stamina, esquivas precisas, janelas de ataque, cura limitada e chefes que exigem leitura de padrões. Ao mesmo tempo, ele flerta com uma pegada mais permissiva de hack-and-slash, permitindo vencer muitos encontros “na raça”, sem explorar todo o kit avançado.

Quando tudo encaixa, o combate é delicioso. As builds, armas e habilidades criam um ciclo ofensivo que incentiva agressividade e experimentação constante.

O problema aparece na legibilidade. Em algumas bossfights, certos ataques têm telegraphing fraco ou confuso, fazendo com que você tome dano sem entender exatamente de onde veio. Isso quebra a sensação de justiça que é essencial para o gênero funcionar bem.

Blood Codes e builds: o coração do jogo (e ele está forte)

Se existe um ponto em que Code Vein 2 realmente brilha, é no seu lado “RPG de brincar de build”. O sistema de Blood Codes retorna mais robusto e fluido, reduzindo a fricção de respeccar tudo apenas para testar uma ideia nova.

Essa liberdade transforma a progressão e o combate em um verdadeiro laboratório de possibilidades — e é, sem dúvida, a parte mais forte do jogo.

O único porém é que nem sempre o design te obriga a usar toda essa profundidade. Em vários momentos, a dificuldade permite avançar quase no piloto automático, fazendo com que parte do arsenal pareça opcional demais.

Partner System: acessibilidade com identidade própria

O sistema de companheiros não é apenas cosmético. Ele funciona como uma alternativa interessante ao tradicional sistema de invocações do gênero, alterando a dinâmica de risco e recompensa. Em algumas situações, o aliado pode até te salvar da morte, oferecendo uma segunda chance.

Há também uma escolha interessante: jogar acompanhado ou optar por ficar solo em troca de buffs específicos. Isso muda completamente o ritmo das lutas contra chefes e ajuda a acomodar tanto quem busca um desafio mais puro quanto quem prefere uma experiência mais acessível.

Performance no PC: a “melhor forma” de jogar (por exclusão)

As versões de console sofreram críticas por desempenho instável, especialmente em áreas abertas, com quedas de framerate e stuttering frequente.

No PC, isso não significa perfeição, mas ele acaba se tornando a opção mais segura. Ajustes gráficos e hardware mais robusto ajudam a contornar boa parte dos problemas. Ainda assim, o jogo claramente precisa de mais polimento técnico, mesmo quando suas ideias de design funcionam.

Veredito: um “quase lá” que vale muito no PC

No PC, Code Vein 2 é aquele tipo de jogo que você recomenda com um sorriso — e um asterisco. Ele melhora pilares importantes, entrega uma fantasia anime-soulslike mais confiante e oferece ótimos momentos de exploração e combate.

Por outro lado, ainda sofre com repetição de inimigos e chefes, ritmo prejudicado por excesso de exposição e, em certas lutas, a sensação frustrante de apanhar mais por falta de clareza do que por erro próprio.

Se você gostou do primeiro jogo, curte experimentar builds e procura um soulslike menos punitivo e mais “JRPG na veia”, o PC é, sem dúvida, o melhor palco para essa sequência. Só não espere um novo rei do gênero. Code Vein 2 continua sendo, acima de tudo, um jogo estiloso, cheio de boas ideias… que ainda busca sua forma definitiva.