O gênero de sobrevivência nunca esteve tão cheio. Só neste ano, o PS5 recebeu RuneScape: Dragonwilds e uma fila de jogos prometendo construir, explorar e sobreviver com os amigos. No meio de tudo isso, Enshrouded se destaca por entregar algo que muita gente sonha há anos: um survival de fantasia medieval de verdade, com magia, ruínas de um reino antigo e um mundo inteiro para reconstruir.
E não é exagero. Para mim, Enshrouded é um dos melhores survivals que existem hoje. Ele rivaliza de perto com RuneScape: Dragonwilds e ganha em vários pontos, principalmente no mundo, na construção e na liberdade para jogar do seu jeito.
A história do jogo começa na Alemanha, na Keen Games, estúdio que já tinha no currículo o simpático Portal Knights. O projeto foi revelado em maio de 2023 e estreou em acesso antecipado na Steam em 24 de janeiro de 2024. A resposta foi imediata: cerca de 1 milhão de cópias na primeira semana e 3 milhões de jogadores em agosto do mesmo ano.
Foram quase três anos de desenvolvimento aberto, com oito grandes atualizações, 14 patches e 42 hotfixes. Nesse tempo, o jogo ganhou três biomas novos, armas, armaduras, água dinâmica e, em abril de 2026, a atualização Forging the Path, que refez o combate. Quando a versão 1.0 chegou, em 15 de outubro de 2026, já eram mais de 5,5 milhões de jogadores.
A versão final saiu para PC e PS5, com melhorias para o PS5 Pro, e a versão de Xbox Series X|S ficou para 2027. Ela conclui a história principal, completa o mapa com um bioma de ilhas flutuantes, sobe o nível máximo para 50 e traz magias novas, dublagem completa e ferramentas de construção ainda mais ambiciosas. Joguei no PS5, inclusive online com amigos, e o resultado é um jogo que finalmente chega ao tamanho que prometeu.
A névoa te chama
Em Enshrouded, você é um Flameborn, a última centelha de esperança de um povo à beira do fim, e desperta num cofre antigo no meio de Embervale, um reino arruinado. O que destruiu tudo foi a Mortalha, uma névoa que corrompeu quase todo o território, transformou criaturas em monstros e esconde, ao mesmo tempo, os inimigos mais perigosos e os melhores recursos do jogo.
Entrar na mortalha é sempre um risco calculado. Lá dentro, um cronômetro começa a correr e, quando ele acaba, a névoa consome você. A névoa vermelha, a mais densa, drena esse tempo ainda mais rápido. Para avançar, você precisa encontrar os poços de elixir de onde a mortalha brota, destruir as raízes que alimentam a névoa, o que rende pontos de habilidade, e fortalecer a sua chama, que afasta o perigo e libera novas regiões.
Um ponto que até surpreende aqui é a história. Survival costuma ter, no máximo, uma desculpa para você sair coletando madeira, mas aqui existe um mistério de verdade sobre o que aconteceu com Embervale e com o povo que vivia ali. Ele aparece em pergaminhos espalhados pelo mapa, nas conversas com os personagens que você resgata e, agora na versão 1.0, numa conclusão para a história principal, com dublagem completa em inglês, alemão e chinês.
E o mapa ajuda muito nisso. Diferente de muitos jogos do gênero, o mundo de Enshrouded não é gerado proceduralmente: a Keen Games construiu o mapa à mão. E isso aparece no level design. Cada ruína, caverna e torre parece colocada ali com intenção, e explorar é sempre recompensado com um baú, um segredo ou um caminho novo.
A variedade de paisagens também impressiona. Das planícies verdes de Springlands ao pântano de Blackmire, passando por desertos, montanhas nevadas e cidades submersas, o mapa é gigantesco. A versão 1.0 ainda fecha Embervale com um bioma novo de ilhas flutuantes no meio das nuvens, que rende algumas das vistas mais bonitas do game.
Uma base que vira vila
Toda base começa com o altar da chama. A partir dele, o modo de construção é um dos melhores que já vi num survival. Paredes, telhados, escadas e decoração se encaixam com facilidade, dá para cavar porões, abrir túneis e moldar a montanha do jeito que você quiser. Em poucas horas, você tem uma casa completa.
E essa vila não fica vazia. Espalhados por Embervale, em cofres antigos, estão os sobreviventes que você pode resgatar e levar para casa: o ferreiro Oswald Anders, o alquimista Balthazar, a fazendeira Emily Fray, o carpinteiro Cade Hawthorn e o caçador Athalan Skree, entre outros. Cada um libera novas estações de trabalho e receitas, como forja, alquimia, carpintaria e tecelagem, e ainda traz um assistente e missões próprias.
É aqui que Enshrouded se separa dos outros survivals. Normalmente, o mundo se resume à sua base e a você. Aqui, conforme você resgata mais gente, a base ganha moradores, conversas, pedidos e uma sensação de mundo vivo que o gênero raramente entrega. Voltar para casa depois de uma expedição no Shroud e encontrar a vila funcionando é muito satisfatório.
A versão 1.0 ainda expande a construção. Com o Sparkworks, um conjunto de ferramentas de lógica, dá para criar bases e masmorras interativas e compartilhar tudo no hub de criações, onde você também visita os mundos de outros jogadores.
Nem tudo é perfeito. Móveis, portas e itens decorativos precisam ser fabricados numa bancada, levados para a barra de atalhos e só então colocados na sua casa, um processo que cansa. O inventário também enche rápido, e as idas à base para esvaziar a mochila viram rotina, ainda que a viagem rápida entre altares ajude bastante.
Talentos, magia e um combate que melhorou
A progressão é outro ponto forte. A cada nível, você ganha pontos para gastar numa árvore de talentos que lembra, em escala bem menor, a de Path of Exile. Em vez de uma linha reta, ela é uma grande teia em que cada caminho leva a uma especialização, como o arqueiro, o bárbaro de armas de duas mãos e o mago de batalha, que se teleporta na esquiva. Dá para misturar tudo e montar builds híbridas, como um guerreiro que também usa magia.
Na versão 1.0, o nível máximo subiu para 50 e a árvore foi reiniciada, com habilidades novas e nove magias inéditas para magos, incluindo invocações. Com o tempo, você fica tão forte que consegue pegar quase a árvore inteira, e aí o jogo vira um prazer diferente: farmar equipamentos, limpar áreas antigas e encarar os chefes mais difíceis com a build no talo.
O combate é a parte que mais evoluiu e, ainda assim, a mais fraca. Depois da atualização Forging the Path, ele ganhou uma barra de atordoamento: bloquear, aparar e acertar o inimigo enche essa barra e abre espaço para um golpe final poderoso. Funciona, mas os golpes ainda parecem um pouco soltos, principalmente no corpo a corpo. As builds de magia são as mais divertidas.
Para se locomover, você tem um gancho para alcançar lugares altos e um planador que também funciona como wingsuit, perfeito para pular de um penhasco e descer planando direto para dentro do Shroud. Já a sobrevivência é generosa. Você precisa comer, beber e descansar, mas isso rende bônus em vez de punir, então o jogo nunca vira uma planilha de necessidades.
Sozinho ou com a galera
Uma das coisas que mais gosto em Enshrouded é a liberdade para ajustar o mundo. Ao criar um mundo, você escolhe entre predefinições que vão de uma experiência relaxada até o modo sobrevivência, ou personaliza tudo: dano e vida dos inimigos e dos chefes, quantidade de inimigos, experiência ganha em combate, mineração e missões, tempo até a fome, tempo dentro do Shroud, perda de itens ao morrer, duração do dia e da noite, durabilidade das armas e muito mais.
Quer que os inimigos batam mais forte e você ganhe mais experiência? Dá. Quer só construir com calma, sem se preocupar com a fome? Também dá. E essas regras podem ser alteradas depois, então dá para ir ajustando o desafio conforme o grupo evolui.
E é jogando online que o jogo mais brilha. No PS5, até oito pessoas podem jogar juntas no mesmo mundo (no PC são até 16), com cada uma cuidando de uma parte: uma explora o Shroud, outra cuida da fazenda, outra levanta as muralhas da vila. Para o multiplayer, é preciso ter PS Plus, e o crossplay com o PC não está disponível no lançamento, embora a Keen Games diga que está trabalhando nisso.
Desempenho no PS5
Enshrouded é um jogo bonito de verdade. A iluminação, a névoa do Shroud e as paisagens de Embervale formam um visual de alta fantasia que dá vontade de parar e tirar print a cada esquina. No PS5, você escolhe entre o modo desempenho, que mira 60 quadros por segundo, e o modo qualidade, travado em 30 quadros.
Recomendo o desempenho sem pensar duas vezes. Ele roda muito bem e deixa a exploração e o combate bem mais agradáveis. O modo qualidade é mais bonito, mas os 30 quadros parecem um pouco travados, já que o frame pacing não é dos melhores. A diferença visual entre os dois é relativamente grande, com concessões gráficas claras no modo desempenho, mas mesmo assim o jogo continua lindo. No PS5 Pro, há um modo dedicado de 60 quadros com PSSR 2.0, e o jogo também aproveita a vibração e os gatilhos adaptáveis do DualSense.
Um dos melhores survivals da geração
Enshrouded consegue equilibrar como poucos a sobrevivência, o RPG e a construção. É o survival de fantasia medieval que muita gente sonhava em jogar, com um mundo feito à mão e uma base que realmente ganha vida.
O combate ainda pede refinamento e a organização do inventário cansa, mas são detalhes perto do que o jogo entrega. Se você gosta de sobreviver, construir e explorar, sozinho ou com os amigos, é uma compra fácil de recomendar, e uma daquelas que vão devorar muitas horas da sua vida.
Enshrouded foi lançado na versão 1.0 em 15 de outubro de 2026 para PC e PS5, com melhorias para o PS5 Pro. A versão de Xbox Series X|S está prevista para 2027. No PS5, o jogo está saindo por R$ 229,90 na edição padrão e R$ 284,90 na Deluxe, que inclui trajes de classe, livro de arte digital, mapa de Embervale em alta resolução e a trilha sonora.
*O Cromossomo Nerd agradece à Keen Games por ter nos cedido uma cópia de Enshrouded no PS5 para esta análise.
