Dark Arisen chega dois anos e meio depois do lançamento de Dragon's Dogma 2 com uma nova região, um sistema de loot que finalmente faz sentido e um desafio que devolve o medo ao Nascen. Será que a Capcom repetiu a fórmula do primeiro jogo?
Quem acompanha a franquia sabe que a história se repete. Em 2013, a expansão Dark Arisen pegou um RPG cheio de potencial, mas com muita coisa para arrumar, e transformou Dragon's Dogma no jogo cultuado que conhecemos hoje. Treze anos depois, a Capcom resolveu seguir exatamente o mesmo caminho com Dragon's Dogma 2.
Em nossa análise do jogo base, elogiamos o combate, a imersão e a trilha sonora, e apesar da nota alta,também apontamos os problemas: performance instável, repetição de monstros e as polêmicas microtransações. O que pouca gente percebeu no lançamento é que, com o tempo, outro problema foi ficando mais evidente.
Depois de algumas dezenas de horas, o seu Nascen fica tão forte que o mundo simplesmente deixa de oferecer qualquer perigo. E é justamente aí que Dark Arisen entra. Essa é uma DLC obrigatória. Depois de jogar a expansão, não consigo mais recomendar Dragon's Dogma 2 sem ela.
Um jogo novo dentro do mesmo jogo
Antes mesmo de falar da expansão paga, vale destacar o trabalho que a Capcom fez de graça ao longo do ano. As atualizações gratuitas trouxeram seis espaços de habilidade para o Nascen, ajustes no comportamento dos Peões e uma viagem rápida muito mais acessível com a pedra-barca eterna, o que, convenhamos, esvazia boa parte da discussão sobre comprar itens de viagem na loja.
O desempenho também deu um salto enorme. Junto da expansão chegou ainda a Atualização 4.0, também gratuita, que adiciona o Modo Difícil para quem já domina o jogo e quer voltar a sentir a pressão de cada combate. Com tudo isso somado, praticamente todas as grandes reclamações do público foram resolvidas. A repetição de inimigos, o game design que deixava o fim de jogo vazio, a progressão que perdia o sentido e até o peso das microtransações.
A única coisa que continua igual é a segunda metade da história principal do jogo base, algo que obviamente não daria para reescrever a essa altura. E é aqui que a fórmula do primeiro jogo se repete, querendo ou não. Dragon's Dogma 2 com Dark Arisen é outro jogo. É o jogo que muita gente esperava receber em março de 2024.
Norgan e o medo de virar a esquina
Para acessar o conteúdo da expansão, basta conversar com o Capitão Brant à noite, algo que a própria história principal já te leva a fazer bem no começo da aventura. Ele libera duas novas linhas de missão: a campanha da expansão e os desafios das Lost Rites. A partir daí, um voo em um grifo te leva até Norgan, uma região gelada e abandonada ao norte do mapa.
Logo de cara, você descobre que a região está sob ataque de um Dragão Caído, uma criatura que parece impossível de matar, já que se regenera toda vez que sofre um dano considerável. Para enfrentá-lo, você conta com um assentamento de sobreviventes e com Eir, uma guerreira misteriosa que vem lutando contra o dragão há muito tempo.
Sem spoilers, a narrativa da expansão é mais clara e mais bem amarrada que a do jogo base, com personagens melhor desenvolvidos e um mistério que vai deixar os fãs do lore da franquia conversando por um bom
tempo. Ainda assim, a história não é o carro chefe aqui. O que faz Dark Arisen brilhar é o que ele faz com o gameplay. Mesmo tendo terminado o jogo base extremamente overpower, Norgan fez Dragon's Dogma 2 parecer difícil de novo. Nas primeiras horas, meus ataques mal arranhavam os inimigos.
Voltei a tomar cuidado, a pensar na composição do meu grupo, a buildar o personagem com calma e, principalmente, a torcer para não encontrar um bicho que simplesmente me desse um hit kill na próxima esquina ou logo na entrada de uma dungeon. Essa sensação de perigo, que tinha sumido completamente do jogo base, é a melhor coisa da expansão. A variedade de inimigos também está muito maior.
Os novos monstros trazem padrões diferentes e até os tipos já conhecidos se comportam de um jeito que te obriga a mudar a abordagem em cada combate. Destaque para os Dragões de Fimbul, dragões de gelo que podem transformar uma nevasca em uma tempestade de granizo que causa dano contínuo. É um dos combates mais tensos da expansão, mas também um dos poucos pontos que me incomodaram, já que, se o seu equipamento não tiver a resistência certa, a única saída é fugir e voltar depois.
O clima, aliás, é parte do gameplay. Em áreas de nevasca, a sua estamina máxima vai diminuindo com o tempo e o minimapa desaparece completamente. Para não se perder, a história te entrega uma bússola espiritual que aponta o caminho para o objetivo. Equipamentos com resistência térmica e itens como pedras de calor também ajudam a atravessar essas regiões.
O mapa de Norgan é muito bem feito, com muita verticalidade e caminhos em camadas. O mais interessante é que as missões te levam naturalmente aos pontos chave da região, então mesmo quem só segue o objetivo principal já encontra muito loot, muitos monstros e muita coisa para fazer. Mas é óbvio que, se você parar para explorar, vai encontrar muito mais. Até as missões propositalmente vagas ganham dicas extras na cidade conforme o tempo passa, então você nunca fica travado por muito tempo.
Relíquias, builds e um loot que finalmente importa
Assim como no primeiro Dark Arisen, o grande motor da expansão é o loot. Matando inimigos ou vasculhando pilhas de destroços espalhadas pelo mapa, você encontra relíquias não identificadas, que precisam ser avaliadas por um NPC do assentamento usando cristais da fenda, aquela mesma moeda usada para contratar Peões.
Cada relíquia tem um nível e uma raridade, e quanto melhor ela for, maiores as chances de sair um equipamento realmente bom. As peças vêm com atributos e habilidades extras aleatórias, o que abre um leque enorme de possibilidades de build. Você pode montar um personagem mais tanque, focar em dano elemental ou buscar resistências específicas para os perigos de Norgan.
O resultado é que, mesmo já tendo a espada e o escudo mais fortes do jogo, você continua animado para pegar a próxima arma, porque ela pode trazer exatamente a habilidade que faltava na sua build. Isso dá um motivo real para explorar e para enfrentar monstros poderosos de novo, algo que o jogo base simplesmente tinha perdido no fim da campanha. Quem prefere menos aleatoriedade também tem opção.
O ferreiro de Norgan usa materiais coletados na região para forjar versões próprias de alguns equipamentos, o que ajuda quando você precisa de uma peça específica. E depois de uma missão secundária, ele também passa a oferecer um sistema de costura, que permite mudar a aparência dos seus equipamentos e dos do seu Peão principal. Só senti falta de poder fazer isso com as capas.
Lost Rites e a volta a Vermund e Battahl
A segunda grande novidade são as Lost Rites, 12 desafios de dungeon espalhados pelo mapa original de Vermund e Battahl. Elas são recomendadas a partir do nível 20 e, em vez de serem apenas mais lugares para farmar inimigos, cada uma traz suas próprias regras e restrições, quase como quebra-cabeças de combate que te obrigam a repensar o grupo e o equipamento.
Ao completar uma Lost Rite, você recebe equipamentos e chamas que podem ser oferecidas aos obeliscos de Norgan. Depois de limpar a área ao redor de cada obelisco, essas oferendas permitem gastar pontos de vocação para aprimorar habilidades da vocação ligada a ele. É uma camada de progressão simples, mas muito bem pensada.
O melhor de tudo é que as Lost Rites te obrigam a voltar para o mapa original. Sem elas, eu provavelmente ficaria em Norgan para sempre. Assim, a expansão se integra ao jogo base em vez de parecer um jogo separado acessado por uma porta.
Desempenho no PlayStation 5
Se na análise do jogo base a otimização foi a nota mais baixa, aqui a história é outra. Dragon's Dogma 2 está rodando extremamente liso no PlayStation 5, inclusive nas regiões mais carregadas de Norgan, com nevascas, vários inimigos na tela e o Dragão Caído dando as caras.
As quedas de fps que incomodavam nas grandes cidades praticamente desapareceram durante a nossa jogatina. A direção de arte continua impecável, e a ambientação de Norgan, com seu design sonoro, a neve e as variações de visibilidade, é uma das mais bonitas da franquia. A trilha sonora segue no mesmo nível épico do jogo base.
Conclusão
Dark Arisen não muda o que Dragon's Dogma 2 é. Os Peões continuam lá, as viagens a pé continuam sendo parte da experiência e a história do jogo base continua a mesma. O que a Capcom fez foi pegar tudo que o jogo já fazia muito bem e finalmente dar conteúdo e desafio à altura desses sistemas.
O combate agora tem dificuldade digna do seu sistema, a exploração tem recompensas que valem a pena e o seu Nascen poderoso finalmente tem algo para perseguir. Dá para criticar o tempo que levou e o fato de muitas dessas melhorias virem junto de uma expansão paga, mas o resultado é tão bom que essa discussão pode até ficar em segundo plano. Se você gostou de Dragon's Dogma 2 e parou de jogar porque ficou forte demais, Dark Arisen é exatamente o que você estava esperando. E se você nunca jogou, agora é a hora certa.
*O Cromossomo Nerd agradece a Capcom por ter nos cedido uma cópia de Dragon's Dogma 2: Dark Arisen no PS5 para esta análise.
