O retorno a Nosgoth sempre foi o “Santo Graal” dos fãs de aventuras góticas. Após décadas de silêncio, interrompidas apenas por remasterizações, o anúncio de Legacy of Kain: Ascendance trouxe um misto de euforia e apreensão. Não se trata do RPG de ação 3D de alto orçamento que muitos esperavam, mas sim de uma proposta menor da Bit Bot Media, que traz um verdadeiro “Casos de Família” com vampiros sedentos por vingança.
O título se propõe a ser uma prequela que amarra os eventos de The Dead Shall Rise, a polêmica HQ, ao início de Soul Reaver, utilizando uma estrutura de progressão lateral em 2D para recontar a ascensão dos generais de Kain. É uma tentativa de humanizar monstros e dar rostos a nomes que, até então, eram apenas lendas gravadas em pilares de pedra.
Mas será que a força do nome Legacy of Kain é suficiente para sustentar uma experiência que troca a profundidade filosófica por mecânicas simplistas, ou estamos diante de uma ressurreição que deveria ter permanecido no abismo?
Laços de Sangue e Traições Familiares
A narrativa de Legacy of Kain: Ascendance gira em torno do luto e da vingança de Elaleth. Ambientada em uma Nosgoth ainda sob o domínio dos inquisidores da Ordem de Sarafan, acompanhamos a juventude de Raziel sob uma nova ótica.
O conflito central explode quando uma invasão vampírica liderada por Kain destrói a vida pacata dos irmãos, resultando na morte de Mathias, o amor de Elaleth, e na transformação irremediável de suas vidas.
O universo tenta expandir a mitologia introduzindo o demônio Ky’set’syk, que utiliza Elaleth como um peão temporal. Através de um amuleto mágico, ela viaja por diferentes eras, observando a transformação de seu irmão em um monstro e, eventualmente, em um espectro.

O tom é carregado de melancolia e fatalismo, tentando mimetizar o estilo shakespeariano que definiu a série original escrita por Amy Hennig. Os personagens principais são apresentados em momentos distintos de suas cronologias: vemos Kain em seu auge de conquistador e Raziel em sua transição de herói humano a tenente vampírico.
Aqui, porém, a estrutura desmorona. A qualidade da escrita é inconsistente, muitas vezes recorrendo a diálogos expositivos que subestimam a inteligência do jogador. O desenvolvimento de Elaleth é prejudicado por uma motivação unidimensional — a ‘mulher desprezada em busca de vingança’ — que soa deslocada e rasa perto da complexidade política e existencial de Kain e Raziel.

O ritmo narrativo sofre com a inserção retroativa de Elaleth em eventos-chave; ao sugerir que ela foi a catalisadora de momentos icônicos, como o surgimento das asas de Raziel, o jogo retira a agência dos protagonistas originais, transformando o destino de Kain em um efeito colateral de um drama familiar menor.
Com uma campanha extremamente curta que pode ser terminada em 4 horas, não há tempo para que o impacto das revelações amadureça. A sensação que fica é que os problemas serão resolvidos depois, resta saber se em algum jogo ou outra HQ.
A Ascensão dos Generais
A estrutura de Legacy of Kain: Ascendance abandona a exploração tridimensional e o backtracking atmosférico de seus antecessores em favor de um gameplay loop de ação lateral extremamente rígido.
O jogo se divide em 12 capítulos lineares onde o objetivo raramente desvia do “vá da esquerda para a direita e mate tudo o que se move”. Embora a base de movimentação seja funcional, com saltos e ataques que respondem bem aos comandos, a curva de aprendizado é inexistente.
O título falha ao não introduzir novas camadas de combate ou sinergias de habilidades ao longo da jornada; o que se experimenta nos primeiros dez minutos é exatamente o que se repete até o clímax.

O sistema de combate é onde a simplicidade cruza a linha do negligente. Cada personagem possui um conjunto de movimentos básico que carece de variações direcionais: não há golpes para cima para lidar com ameaças aéreas, nem ataques baixos para inimigos menores.
Essa limitação força o jogador a depender exclusivamente do parry e de ataques frontais repetitivos, esmagando um único botão durante 90% do tempo. A experiência é agravada por uma IA rudimentar que compromete qualquer desafio tático; é comum ver soldados caminhando para o abismo por conta própria ou travados em animações de ataque contra o vento, ignorando completamente a presença do jogador.
Essa falta de coesão mecânica, somada a ataques inimigos teleguiados que surgem fora da tela, faz com que a alternância de personagens pareça uma colagem de sistemas mal testados. Jogar com Elaleth é ativar um “modo fácil” devido à sua regeneração generosa, enquanto os capítulos com o Raziel humano são um exercício de masoquismo com checkpoints distantes.

O impacto real dessa estrutura é uma sensação precoce de fadiga. Em um jogo curto, é alarmante sentir tédio já na metade do segundo ato. Além disso, a falta de polimento — como animações de morte que ignoram a física e a ausência de um botão para pular cutscenes — torna a experiência burocrática, entregando uma jogabilidade que parece uma relíquia mal conservada do passado.
Ecos do Abismo
O visual de Legacy of Kain: Ascendance é uma faca de dois gumes. A pixel art em si é competente, lembrando títulos da era 8 e 16-bits com uma iluminação moderna que cria atmosferas densas em cemitérios e criptas.
No entanto, o jogo é visualmente inconsistente. Saltamos de retratos HD estáticos para modelos 3D de baixa contagem de polígonos que parecem sobras de um projeto de Nintendo DS. Essa mistura de estilos impede que o jogo tenha uma identidade visual sólida.
Tecnicamente, o jogo roda a 60 FPS constantes sem quedas perceptíveis e os tempos de carregamento são praticamente instantâneos, mas isso não deveria ser diferente por ser tão leve.

A dublagem é o ponto alto: ouvir Michael Bell e Simon Templeman retomando seus papéis é um bálsamo para os ouvidos, mesmo que a idade de Bell transpareça na voz de um Raziel jovem. A trilha sonora acompanha bem a proposta sombria, mas carece de um tema marcante que rivalize com os clássicos da série.
Devo investir em Legacy of Kain: Ascendance?
Legacy of Kain: Ascendance é um projeto de paixão que falha em entender o que tornava a série original grandiosa. Em vez de focar na complexidade filosófica de seus reis vampiros, ele se perde em um drama familiar que soa como uma fanfiction oficializada. Sem tempo para que o impacto das revelações amadureça, o final parece menos uma conclusão épica e mais um “gancho” comercial para futuras sequências.
É um título recomendado apenas para os completistas ferrenhos que desejam ver cada fragmento de Nosgoth, independentemente da qualidade. Para o público geral, a experiência é curta, rasa e mecanicamente frustrante.

Legacy of Kain: Ascendance está disponível para PlayStation 5, Xbox Series X|S, Nintendo Switch 2, Nintendo Switch e PC via Steam e Epic Games Store.
*O Cromossomo Nerd agradece pela chave de PS5 utilizada nesta análise.























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