EA Sports UFC 6 | Uma porradaria épica que repete erros do passado — ANÁLISE

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A franquia de MMA da Electronic Arts retorna aos consoles com a promessa de refinar a simulação de combate após um hiato estratégico no desenvolvimento. EA Sports UFC 6 chega cercado de expectativa por expandir a experiência além da pancadaria pura, tentando capturar o ecossistema cultural e a mística que envolvem o maior evento de artes marciais mistas do planeta.

O título se posiciona como um simulador esportivo de elite, impulsionado pelo motor gráfico Frostbite, que busca estabelecer um novo teto tecnológico para o gênero de luta. A proposta divide espaço entre atrair o público casual e satisfazer os entusiastas puristas, estruturando-se em pilares que misturam a crueza das arenas com narrativas cinematográficas de superação.

O objetivo principal desta edição é provar que a série consegue quebrar o fantasma da estagnação que assombra os jogos de esporte contemporâneos. Através de mecânicas inéditas e modos inéditos, o game tenta fisgar o jogador pelo impacto sensorial, embora ainda carregue heranças incômodas de suas edições passadas.

Do Respeito ao Legado: Chama!

O grande acréscimo reside no modo O Legado, uma campanha que acompanha a trajetória do lutador fictício Chris Carter, um jovem oriundo do wrestling universitário que tenta sair da sombra do pai campeão. O enredo utiliza clichês eficientes de dramas esportivos para guiar o aprendizado inicial, criando rivalidades previsíveis dentro da academia que ajudam a ditar o ritmo da jornada inicial.

O problema é que essa energia narrativa se dilui assim que o protagonista alcança o octógono principal da organização. O roteiro abdica de sua força dramática e se transforma em uma grande introdução para o modo Carreira convencional, abandonando os arcos de personagens em prol de uma interface puramente focada na administração de menus.

Por outro lado, o inédito Hall das Lendas compensa essa quebra ao funcionar como um museu interativo híbrido em terceira pessoa, onde o jogador caminha por ambientes customizados. O foco inicial está em Alex “Poatan” Pereira, Max Holloway e Zhang Weili, permitindo explorar totens de informação que desbloqueiam minidocumentários reais de suas trajetórias.

A mecânica do modo consiste em amarrar esses depoimentos e cenas de arquivo diretamente a desafios de gameplay em arenas 3D imersivas, recriando as lutas mais icônicas de cada um. É um deleite para os fãs que, além de absorver a bagagem cultural — como a belíssima homenagem às raízes Pataxó de Poatan —, liberam itens cosméticos exclusivos para o restante do game.

Apesar da execução primorosa e do forte apelo emocional, a experiência cobra seu preço na longevidade devido ao conteúdo enxuto. Com apenas três atletas disponíveis no lançamento, o modo entrega tudo o que tem rápido demais, deixando uma forte dependência de futuras atualizações sazonais de elenco para manter o interesse ativo.

O Retorno ao Octógono

A luta em pé atinge o ápice da franquia por meio do sistema Real-Time Contact, que calcula ângulos e distâncias de forma cirúrgica para ditar o peso de cada golpe. A trocação franca pune o esmagamento aleatório de botões com uma perda severa de stamina, exigindo do jogador paciência, leitura de movimentos e estratégia tática para abrir a guarda adversária.

A grande novidade mecânica é o Flow State, um estado de foco ativado pelo d-pad que concede vantagens temporárias de velocidade e precisão ao atuar conforme o arquétipo do atleta. Embora adicione uma camada de psicologia de combate interessante, o recurso divide opiniões por aproximar a jogabilidade de uma estética arcade, quebrando a imersão de simulação crua.

A engenharia de design tenta mitigar a complexidade histórica da série através do sistema First Time User Experience. O preset Contender introduz uma mecânica de câmera lenta contextual para facilitar defesas e assistências automatizadas, enquanto o modo Pro desliga as muletas para preservar o desafio exigido pelos veteranos.

Essa profundidade tática é sustentada pelos Signature Strikes, adicionando mais de 100 variantes de golpes característicos baseados em arquétipos reais. Controlar um mestre de Muay Thai altera o arco de impacto dos chutes, enquanto especialistas em Boxe modificam o alinhamento de ombros nas esquivas, destacando a individualidade do plantel.

O ponto fraco da série, contudo, permanece intacto na mecânica de grappling. Quando o combate migra para o solo, a fluidez dá lugar a uma disputa burocrática de comandos analógicos e travas direcionais que cansa rapidamente, tornando as transições e tentativas de submissão um processo artificial e pouco empolgante.

O loop fora das lutas exige o equilíbrio constante entre Hype, Condicionamento Físico e treinos semanais para moldar os atributos do lutador no modo carreira. Essa rotina de preparação se torna repetitiva após os primeiros contratos, forçando o jogador a simular as atividades para evitar o desgaste de exercícios engessados.

Para tentar reter o público a longo prazo, o game aposta na central A Academia, que funciona como um sistema de progressão similar a passes de batalha. O jogador recruta atletas e os evolui em submodos para destravar cosméticos, embora a mecânica careça de profundidade gerencial e sature após as primeiras semanas de jogo.

O fôlego definitivo do loop de engajamento é ditado pelo calendário de Live Service por meio do modo Fight Week. A mecânica injeta desafios e sistemas de palpites sincronizados cronologicamente com os cards reais do UFC, amarrando a progressão online a recompensas sazonais no Fighter Pass e à promessa de expansões de modos até meados de 2027.Aspectos Técnicos

A Era das Superlutas

Visualmente, o título impressiona no aproveitamento de iluminação dinâmica e na fidelidade anatômica das principais estrelas do plantel, reproduzindo trejeitos com precisão milimétrica. Entretanto, esse capricho é inconsistente e escancara uma negligência incômoda com atletas históricos ou menos populares, que surgem sem suas tatuagens características e com corpos genéricos.

A física baseada em ragdoll proporciona nocautes impactantes, mas falha gravemente na plasticidade de colisões secundárias. É frequente presenciar replays em câmera lenta onde membros se dobram de forma bizarra ou socos desviam artificialmente em ombros e posições humanamente impossíveis, somado a cortes no rosto que crescem de uma hora para a outra ou lutadores que desabam como um frango desossado em nocautes.

Essa quebra de imersão visual se estende à transmissão devido ao comportamento do árbitro. Na tentativa de não obstruir a visão do jogador, o juiz transforma-se em um espectro que desaparece e ressurge de maneira caótica na frente da câmera, destruindo a atmosfera de transmissão oficial de TV buscada pela EA.

O motor Frostbite implementa um excelente uso de motion blur para intensificar a percepção de velocidade, mas tropeça na calibragem de câmera. O enquadramento exibe uma movimentação excessivamente nervosa e balançante durante esquivas laterais, o que incomoda e pode até gerar tontura em jogadores mais sensíveis.

A direção de arte também escorrega ao insistir em um filtro de cor azulado e frio nas arenas para forçar uma estética cinematográfica, sacrificando o realismo fotográfico. Para piorar, faltou ambição na variedade de palcos; embora traga a famosa Farmasi Arena no Brasil, o game recicla cenários antigos e ignora locais icônicos recentes como a Sphere de Las Vegas e perde a chance de fazer algo como no megaevento recente da Casa Branca.

O design de áudio fecha o pacote de forma primorosa, traduzindo a hostilidade das arquibancadas e a distinção sonora de cada impacto físico no corpo do rival. A ausência de narração em português do Brasil é minimizada pela excelente localização dos textos e pela divertida e entrosada cabine de transmissão original de Jon Anik e Daniel Cormier.

Devo comprar EA Sports UFC 6?

EA Sports UFC 6 consolida a sua posição no mercado como uma evolução competente, capaz de entregar os combates em pé mais viscerais e recompensadores da história da franquia. O título triunfa na atmosfera de evento e na introdução de ferramentas de acessibilidade, sendo um prato cheio para os entusiastas que buscam reviver o legado cultural e a crueza do esporte.

O resultado é positivo, mas falha em entregar a revolução total esperada após um ciclo longo de produção. Ele vence a maioria dos assaltos com folga na trocação de golpes, mas perde pontos preciosos ao insistir em menus repetitivos e nos erros crônicos da sua mecânica de luta no solo.

EA Sports UFC 6 está disponível para PlayStation 5 e Xbox Series X|S.

*O Cromossomo Nerd agradece à EA pela chave de PS5 utilizada nesta análise.