CromoNostalgia | Sonic Rush: O melhor da serie em 2D

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Sonic Rush foi a primeira investida da franquia Sonic para o saudoso Nintendo DS. A Dimps, que já tinha lançado a trilogia Advance para o Game Boy Advance, agora trazia a mais nova parte da história do ouriço para o novo console da Nintendo.

Com o tempo, o jogo se tornou um clássico, tanto pela introdução do boost na era 2D — quando ainda nem tinha sido apresentado — quanto por trazer a trilha sonora do saudoso Hideki Naganuma, que fez a incrível trilha sonora de Jet Set Radio, outro clássico da Sega. Com tudo isso em mente, trago mais um Cromo Nostalgia desse incrível título.

Estilo, velocidade e habilidade

A desenvolvedora do jogo (Dimps) já tinha uma trilogia inteira de Sonic no GBA. Para a mais nova iteração, eles fizeram um jogo que reunia diversas partes da série anterior, mas evoluindo naturalmente muitos aspectos. Sonic Rush é mais rápido do que nunca antes visto, graças ao Boost — mecânica que apareceria tempos depois em Sonic Unleashed. O Boost serve para você se impulsionar em velocidades nunca antes vistas, fazendo com que diversas partes do level design tenham uma rota superior (graças à velocidade) ou inferior (pela falta dela).

O jogo conta com um sistema de Tricks. Cada vez que você é arremessado ao ar, o jogo permite que você esmague os botões para fazer pontos de estilo que enchem sua barra de Boost. O jogo ativamente quer que você use esses botões, já que eles se tornam essenciais para pegar Boost em melhores rotas. O sistema de Tricks, até hoje, foi uma das melhores adições da franquia, já que, acima de tudo, ele ajuda a gameplay a ser natural e fluida — mas também ajuda com uma coisa que este jogo tem de sobra: estilo.

Sonic Rush Trick System
Estilo e substância, junto da resposta, são a definição do jogo

O jogo quer que você se arrisque em locais e use os botões de Trick para isso. Porém, existe um defeito até que grave: ele não explica os Tricks nem o botão L (que seria o Trick de pular ou de atacar). Esse botão é ESSENCIAL, mas faltou tato dos desenvolvedores para explicar para a nova galera, já que era outro console. Quem chega direto da série Advanced provavelmente não sentirá falta, mas todo jogo deve ser analisado por si só, e não por outros.

Apesar disso, tudo o que envolve a gameplay base faz Sonic e Blaze correrem por diversos corredores em velocidades nunca antes vistas no 2D, enquanto fazem Tricks e respondem ao level design em alta velocidade, tornando tudo incrível.


A Incrível trilha sonora de Naganuma

Um dos pontos mais lembrados de Sonic Rush é a trilha sonora fora de série do Hideki Naganuma. Conhecido por seu trabalho com samples e por sua abordagem única em Jet Set Radio — que lhe rendeu o status de lendário na indústria dos games — Naganuma repete a dose aqui com uma coletânea de faixas que se tornaram instantaneamente reconhecíveis. Sua assinatura está em cada batida: samples de músicas antigas, vinis, vozes distorcidas e sons do cotidiano são reorganizados em camadas rítmicas que dialogam perfeitamente com a velocidade e o estilo do jogo. Músicas como Back 2 Back, Get Edgy e Vela-Nova mostram esse trabalho com clareza, transformando cada fase em uma experiência quase musical por si só.

Forte recomendação pra quem tiver interesse

O que torna o trabalho de Naganuma tão especial é justamente essa curadoria sonora: ele não apenas compõe, ele monta a música a partir de fragmentos, como um DJ que recria a atmosfera a partir de referências culturais e sonoras. Isso fica ainda mais evidente em Sonic Rush, onde cada faixa parece ter sido feita sob medida para o momento da tela — seja para uma corrida em alta velocidade, seja para um momento mais calmo, quase ambiental. E, como tudo no jogo, essa identidade sonora reforça o estilo que permeia cada canto da produção.

É impressionante como, mesmo usando uma técnica tão particular, Naganuma consegue criar algo coeso e memorável. Seus samples em Sonic Rush não são apenas detalhes — eles são parte da narrativa do jogo, quase como se o próprio som contasse uma história paralela à corrida do ouriço.

Boss… a parte não tão interessante

Apesar de todos os elogios ao jogo, há um ponto que merece uma nota baixa no conjunto: os chefes. Eles trabalham em um ritmo arrastado, demorando uma eternidade para atacar e, ainda por cima, possuem uma barra de vida gigantesca. O jogador precisa esperar passivamente, sem ter muito o que fazer durante os intervalos.

O jogo chega a repetir um chefe, e essa repetição se torna uma das experiências mais entediantes da campanha. Se fosse difícil, ainda seria aceitável; mas ser entediante é complicado. A situação piora com a presença de golpes instantâneos (hitkill) — se você descuidar, a batalha, que já é longa e cansativa, durará o dobro. Portanto, é preciso prestar atenção, mesmo entediado, para não deixar passar. Porém, uma vez que você entende o padrão, a experiência se torna tolerável.

Sonic rush final clash
O jogo se redimiu nos chefes da reta final, pena que não equilibraram os bons com os entediantes para criar algo mais variado

Dito isso, três chefes em específico são muito bons: Sonic, Blaze e Egg King. A batalha entre Sonic e Blaze (e vice-versa) é icônica, não apenas pelo ponto de vista da história, mas também pelo conflito entre os dois protagonistas. A trilha sonora explode, e a batalha não segue o formato criticado anteriormente — o que é um alívio. Porém, Egg King é a estrela do jogo: o chefe exige tudo o que você aprendeu e, se você não tiver dominado as habilidades do jogo, vai sofrer. E todo chefe final (ou falso chefe final, neste caso) precisa ser o teste supremo das habilidades do jogador. Pena que o resto do jogo não tenha chefes memoráveis como esses três últimos.

Blaze the cat, a estrela do jogo

A franquia Sonic é conhecida por seu elenco massivo de personagens, que crescia a cada novo jogo. A era 2D clássica trouxe Knuckles como rival; a era Dreamcast introduziu Shadow — que acabou se tornando tão importante quanto o próprio Sonic. Depois disso, houve um certo desaparecimento de rivais na série, até a chegada de sua segunda protagonista: Blaze the Cat.

Blaze vem de outro universo, onde é a heroína que protege as Sol Esmeraldas do Eggman Nega — uma contraparte do Eggman da terra de Sonic, tão idêntica e “mais esperta” que acaba funcionando apenas como uma variante. Ela vive nesse universo de forma quase isolada, carregando o fardo de ter o poder das chamas. Sua presença no universo de Sonic se dá graças a um esquema de Eggman Nega em conluio com o Eggman que conhecemos. Sob a perspectiva narrativa, o jogo a coloca como protagonista principal, com Sonic atuando como suporte — e isso funciona perfeitamente.

Traumatizada por anos de luta solitária, Blaze conhece Cream, que a ajuda a perceber que não precisa fazer tudo sozinha. Ela observa como todos confiam em Sonic e reflete sobre o peso de carregar o mundo nas costas. É interessante notar que, de Sonic Rush a Sonic Unleashed, a franquia construiu um arco em que Sonic é retratado como uma força da natureza e um conselheiro nato. Em Black Knight, ele fala sobre o peso da morte e a importância de aproveitar a vida ao máximo; em Unleashed, ele conversa com Chip sobre o peso da vida que levava e como amigos podem ser amigos sem necessidades mútuas; e, em Rush, o tema é justamente o fardo de carregar o mundo inteiro sozinho.

Sonic Rush Final Scene
A personagem e tão boa que ela iria aparecer em sonic 2006 e conseguir ser tão boa quanto

Sempre altruísta, Sonic era a figura ideal para uma protagonista de personalidade mais fechada como Blaze, ajudando-a a se abrir, evoluir e, principalmente, a deixar para trás o estigma de sofrer sozinha. Além da construção narrativa, o design da personagem é primoroso e sua gameplay é absurda. Ela corre mais devagar, mas é mais forte; tem saltos triplicados, plana e destrói tudo pela frente com seus saltos de fogo. Para coroar, Vela-Nova — sua música-tema — é a melhor trilha do jogo, tornando Blaze uma personagem completa em todos os aspectos.

Conclusão

Sonic Rush não é apenas um marco técnico e estilístico na franquia — é também um capítulo fundamental para a construção de sua narrativa e de seu universo emocional. Ao colocar Blaze the Cat no centro da história, o jogo expande o escopo da série para além do conflito entre herói e vilão, explorando temas como solidão, confiança e o peso da responsabilidade. A presença de Sonic, como contraponto altruísta e livre, funciona como catalisador para o amadurecimento da nova protagonista, criando uma das dinâmicas mais bem trabalhadas de toda a franquia.

Do ponto de vista da jogabilidade, Sonic Rush entrega uma experiência veloz, fluida e recompensadora, com mecânicas que se tornariam pilares da série — como o Boost e o sistema de Tricks. E, para completar, a trilha sonora de Hideki Naganuma eleva tudo a outro patamar, com samples e batidas que se tornaram tão icônicas quanto as fases do jogo.

Apesar de alguns tropeços — como chefes arrastados e repetitivos —, o saldo é amplamente positivo. Sonic Rush é um título que envelheceu com elegância, mantendo-se relevante não apenas como um excelente jogo de plataforma, mas como uma das experiências mais completas e cheias de personalidade que a Sega já produziu. Para fãs antigos e novos, fica a lição: velocidade e estilo andam lado a lado — e, quando bem combinados, viram clássico.