Captain Tsubasa 2: World Fighters | Quando a sequência puxa o freio — ANÁLISE

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Quando Captain Tsubasa: Rise of New Champions chegou aos consoles, em 2020, a franquia finalmente encontrou uma maneira de transformar o futebol exagerado de Super Campeões em um jogo que realmente funcionava.

A produção da Tamsoft misturava partidas arcade, golpes especiais, elementos de RPG, criação de personagens, diferentes caminhos narrativos e uma quantidade considerável de possibilidades para montar a própria experiência dentro do universo criado por Yoichi Takahashi.

Seis anos depois, Captain Tsubasa 2: World Fighters chega prometendo expandir essa fórmula. A proposta parecia simples: levar os acontecimentos para o Mundial Sub-20, adicionar novos personagens, aprimorar o sistema de partidas e entregar uma experiência maior e mais completa. O problema é que, durante esse processo, a sequência parece ter confundido evolução com reconstrução.

O futebol está melhor, mas o jogo está menor

É importante começar pelo principal ponto positivo. Quando World Fighters coloca o jogador dentro de campo, existe uma evolução perceptível.

O novo sistema de Chain adiciona uma camada estratégica às partidas, incentivando sequências de jogadas e tornando o posicionamento mais importante. A possibilidade de utilizar técnicas especiais em diferentes posições também amplia as possibilidades durante as partidas, enquanto o novo sistema de goleiros dá ao jogador mais participação na defesa.

Essas mudanças ajudam a diminuir uma das limitações de Rise of New Champions: a tendência de algumas partidas se transformarem em uma repetição de drible, carregamento de energia e chute especial. World Fighters tenta fazer com que as interações tenham mais peso, e algumas análises consideram justamente essa evolução como uma das maiores qualidades da sequência.

O problema é que esse avanço não vem acompanhado de uma evolução equivalente no restante da experiência.

Em comparação direta, World Fighters possui menos modos, menos opções de personalização e menos liberdade em determinados aspectos. Até possibilidades relativamente simples, como escolher a duração das partidas, foram retiradas. É difícil olhar para isso como uma evolução quando características que já estavam presentes no jogo anterior deixam de existir.

Rise of New Champions tinha mais personalidade

Talvez essa seja a maior diferença entre os dois jogos.

Rise of New Champions não era apenas um jogo de futebol baseado em Captain Tsubasa. Ele possuía uma estrutura própria para manter o jogador envolvido durante dezenas de horas. A criação de personagens, o desenvolvimento do atleta, as relações com outros jogadores, a evolução de habilidades e as diferentes possibilidades dentro do modo história davam uma sensação de progressão que ia além das partidas.

Era possível construir um personagem e sentir que ele realmente estava evoluindo.

Em World Fighters, essa liberdade é consideravelmente reduzida. A campanha conduz o jogador por uma estrutura muito mais rígida, com menos espaço para experimentar diferentes caminhos e montar uma experiência personalizada.

Uma campanha que quer contar mais do que deixar você jogar

A história de World Fighters adapta o arco do Mundial Sub-20 e, em termos de material, existe bastante coisa para trabalhar.

A fidelidade ao universo de Captain Tsubasa continua sendo um dos grandes méritos da produção. Personagens conhecidos retornam, novos confrontos são apresentados e a narrativa tenta reproduzir aquela estrutura típica do anime, na qual uma partida de futebol pode facilmente se transformar em um evento dramático de proporções absurdas.

Só existe um pequeno detalhe: o jogo gosta demais de interromper suas próprias partidas.

As cenas de história aparecem constantemente durante a campanha, criando um ritmo irregular. O jogador começa a entrar no clima de uma partida, executa algumas jogadas e, quando a situação finalmente começa a ganhar velocidade, uma nova sequência narrativa interrompe a ação.

Isso não significa que a história seja ruim. Pelo contrário. O problema está na maneira como ela é apresentada.

World Fighters frequentemente parece mais interessado em mostrar ao jogador o próximo acontecimento do que em permitir que ele participe dele. O resultado é uma campanha que pode transmitir a sensação de estar assistindo a um anime interativo no qual o futebol aparece entre uma cena e outra.

A ausência do português é uma decisão difícil de compreender

Existe ainda uma decisão particularmente estranha para o público brasileiro: a ausência de localização em português do Brasil.

Rise of New Champions possuía legendas em português, enquanto World Fighters, apesar de ter uma campanha bastante focada em diálogos e acontecimentos narrativos, abandona essa possibilidade.

A decisão chama ainda mais atenção porque Captain Tsubasa possui uma relação histórica muito forte com o Brasil. Tsubasa passou pelo São Paulo dentro da própria história, a seleção brasileira possui enorme importância no universo da obra e a franquia possui uma base de fãs bastante consolidada no país.

Retirar uma localização que já existia anteriormente acaba transmitindo a sensação de retrocesso. E, considerando a quantidade de diálogos presente na campanha, não se trata de uma pequena perda.

Visualmente, a evolução também não impressiona

Outro problema é que World Fighters não apresenta o salto visual que se esperaria de uma sequência lançada vários anos depois.

O estilo artístico continua adequado ao anime e os golpes especiais são, novamente, o grande espetáculo visual. Explosões, efeitos, movimentos exagerados e técnicas impossíveis fazem parte da identidade de Captain Tsubasa, e o jogo consegue reproduzir essa sensação com competência.

Porém, quando a câmera se afasta dos momentos de espetáculo, fica mais difícil enxergar uma evolução realmente significativa.

Onde a sequência realmente perde velocidade

O maior problema de World Fighters talvez esteja no ritmo.

O futebol de Captain Tsubasa precisa ser exagerado. Precisa ter chutes impossíveis, jogadores voando, defesas milagrosas e técnicas capazes de destruir metade do campo. Isso faz parte da graça. Mas exagero não precisa significar interrupção.

Em World Fighters, a quantidade de sistemas contextuais, animações e eventos pode fazer com que a partida pareça menos fluida do que deveria. O jogador precisa compreender uma série de mecânicas diferentes, enquanto determinadas ações acabam sendo interrompidas por animações e acontecimentos narrativos.

A consequência é curiosa: um jogo que deveria entregar futebol arcade extremamente rápido frequentemente parece estar brigando contra si mesmo para manter o ritmo.

Pontos Positivos: Quando World Fighters acerta

Apesar das críticas, seria injusto tratar World Fighters como um fracasso completo.

O novo sistema de partidas realmente possui boas ideias. A mecânica de Chain, o maior protagonismo dos goleiros e as ações milagrosas adicionam novas possibilidades e mostram que a Tamsoft não simplesmente reciclou o jogo anterior.

A representação do universo de Captain Tsubasa também continua funcionando. Quando o jogo consegue deixar o jogador simplesmente jogar, existe aquela sensação extremamente particular de controlar um episódio do anime.

E o conteúdo baseado no Mundial Sub-20 é uma escolha natural para uma sequência. Existe material suficiente para sustentar uma nova campanha e colocar personagens conhecidos em situações diferentes. O problema não está nas ideias isoladas. Está na maneira como elas foram organizadas.

Um retrocesso que fica mais evidente para quem jogou o primeiro

Talvez World Fighters seja justamente o tipo de sequência que pode ser melhor aproveitada por quem nunca jogou Rise of New Champions. Para esse público, o novo sistema de partidas pode parecer profundo, os golpes especiais são espetaculares e a campanha oferece uma quantidade razoável de conteúdo.

Para quem passou dezenas de horas no jogo anterior, entretanto, a comparação é inevitável. E é aí que a sequência começa a perder força. O jogador percebe que possui menos liberdade, menos modos, menos possibilidades de personalização e uma estrutura mais limitada. Em vez de pegar aquilo que funcionava em Rise of New Champions e construir algo maior sobre essa fundação, World Fighters escolheu reconstruir parte da experiência.

O resultado é um jogo que parece, em determinados momentos, estar tentando corrigir problemas que não eram necessariamente os maiores problemas do antecessor.

Veredito Final: Uma sequência que anda para trás

Captain Tsubasa 2: World Fighters possui qualidades suficientes para impedir que seja considerado simplesmente um jogo ruim. O futebol está mais estratégico, os goleiros ganharam importância, as novas mecânicas funcionam em determinados momentos e a fidelidade ao anime continua sendo um de seus maiores trunfos.

Mas uma sequência precisa ser analisada pelo conjunto. E, nesse aspecto, World Fighters decepciona. O jogo melhora alguns dos elementos mais importantes dentro das partidas, mas simultaneamente remove características que davam identidade, profundidade e longevidade ao primeiro título.

A campanha é mais rígida, o conteúdo parece menos generoso, a personalização perdeu espaço, a localização em português desapareceu e o ritmo é prejudicado pela quantidade de interrupções narrativas. O mais frustrante é que Rise of New Champions já havia encontrado uma fórmula bastante promissora. Bastava expandi-la.

Captain Tsubasa 2: World Fighters tinha a oportunidade de ser simplesmente “Rise of New Champions, só que maior, melhor e com mais conteúdo”. Em vez disso, tornou-se uma sequência que apresenta boas ideias próprias, mas abandona parte daquilo que fez seu antecessor conquistar os fãs.

No fim, fica uma sensação incômoda: World Fighters não parece uma evolução de Rise of New Champions. Parece uma tentativa de recomeçar uma fórmula que já estava funcionando.

E talvez seja justamente por isso que, para quem já conhece o primeiro jogo, a recomendação mais difícil de fazer seja comprar World Fighters.

Porque, ironicamente, o melhor Captain Tsubasa dos dois ainda pode ser aquele lançado seis anos atrás.