Metal Gear Solid: Master Collection Vol. 2 tira alguns dos melhores da franquia do porão do PS3 — ANÁLISE

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Por anos, Metal Gear Solid 4: Guns of the Patriots foi praticamente um fóssil preso dentro de uma caixa chamada PlayStation 3. Não importava quantas gerações passassem, quantos remasters fossem anunciados ou quantos pedidos os fãs fizessem: se você quisesse jogar o capítulo final da história de Solid Snake oficialmente, era necessário voltar para o console de 2006 da Sony.

Agora com o lançamento da Master Collection 2 podemos finalmente dizer que MGS4 teve sua liberdade das amarras do PS3 e eu garanto que a espera valeu a pena.

MGS4 finalmente funciona como um jogo moderno

A principal qualidade da versão de Metal Gear Solid 4 está justamente em não tentar reinventar o jogo. Em vez de transformar a experiência em um remaster excessivamente agressivo, a Konami concentrou seus esforços em resolver aquilo que realmente precisava ser resolvido.

A resolução foi aprimorada, a performance recebeu melhorias significativas e o jogo pode alcançar 60 quadros por segundo, tornando a experiência consideravelmente mais fluida. Os tempos de carregamento também foram reduzidos, algo especialmente importante em um título que originalmente possuía diversas transições entre áreas e momentos da campanha.

Master Collection
Port impecável do ponto de vista técnico

Os controles também foram adaptados para o hardware moderno, tornando a experiência mais confortável para quem chega diretamente de jogos recentes da franquia.

O resultado é uma versão que finalmente permite jogar MGS4 sem a necessidade de recorrer ao PlayStation 3.

O problema nunca foi o gameplay

Curiosamente, revisitar MGS4 tantos anos depois também demonstra que algumas das melhores características do jogo continuam funcionando.

A combinação entre furtividade e combate ainda é bastante eficiente, enquanto o arsenal de Snake oferece diferentes possibilidades para lidar com os confrontos. O sistema de camuflagem continua sendo uma das principais características da experiência, permitindo que o jogador utilize o ambiente a seu favor e alterne entre diferentes abordagens.

O jogo, naturalmente, não possui a mesma liberdade de Metal Gear Solid V. A estrutura é mais linear e algumas mecânicas parecem consideravelmente mais rígidas quando comparadas ao que a franquia desenvolveu posteriormente.

Mesmo assim, o núcleo da jogabilidade permanece sólido. O problema de MGS4 está menos naquilo que acontece quando o jogador está controlando Snake e muito mais naquilo que acontece quando o controle é retirado de suas mãos.

Uma narrativa que envelheceu de maneira desigual

Metal Gear Solid 4 sempre foi um jogo extremamente cinematográfico, mas revisitar sua campanha atualmente torna essa característica ainda mais evidente.

As longas cutscenes são parte fundamental da identidade do título. O problema é que o jogo frequentemente interrompe sua própria progressão para explicar acontecimentos, apresentar personagens ou conectar elementos de diferentes capítulos da franquia.

Para quem acompanhou a série desde os primeiros jogos, esse excesso de referências pode funcionar como uma grande celebração da história de Metal Gear. Para novos jogadores, entretanto, a experiência pode ser consideravelmente mais complicada.

Master Collection
O problema de tentar finalizar 5 jogos ao mesmo tempo é que nunca vai haver tempo suficiente para concluir todo o enredo restante

MGS4 não está simplesmente tentando contar uma nova história. Ele está tentando encerrar praticamente todas as histórias anteriores. Isso explica sua enorme quantidade de diálogos, retornos de personagens e explicações, mas também cria um ritmo bastante irregular.

Existem momentos em que a narrativa é excelente e emocionalmente poderosa, enquanto outros parecem existir apenas para garantir que nenhum detalhe da cronologia fique sem explicação.

É uma característica que faz parte da obra original e que a Master Collection, corretamente, não tenta alterar. Ainda assim, é provavelmente o elemento que mais evidencia o envelhecimento do jogo.

Peace Walker mostra o caminho até The Phantom Pain

Se MGS4 é o principal motivo para comprar a coleção, Metal Gear Solid: Peace Walker é responsável por mostrar que existe muito mais aqui do que simplesmente uma forma moderna de jogar o capítulo final da história de Solid Snake.

Originalmente desenvolvido para PSP, Peace Walker precisou adaptar a fórmula tradicional da franquia para uma experiência portátil. A solução encontrada foi dividir a campanha em missões menores e adicionar sistemas de gerenciamento, recrutamento e desenvolvimento da Mother Base.

Anos depois, essas ideias parecem ainda mais interessantes. Isso porque é impossível jogar Peace Walker atualmente sem perceber o quanto ele antecipou conceitos que seriam fundamentais em Metal Gear Solid V: The Phantom Pain. O recrutamento de soldados, o desenvolvimento de equipamentos e o gerenciamento da base já estavam presentes aqui, ainda que em uma escala muito menor.

A estrutura também envelheceu bem justamente por causa de sua origem portátil. As missões relativamente curtas permitem que o jogador avance aos poucos, tornando Peace Walker particularmente confortável para sessões menores de jogo.

Alguns elementos visuais e de interface denunciam sua origem no PSP, mas isso não impede que continue sendo uma das experiências mais interessantes da coleção.

Ghost Babel é a grande surpresa

Entre MGS4 e Peace Walker existe um contraste enorme, mas a presença de Metal Gear: Ghost Babel torna a coleção ainda mais interessante. Lançado originalmente para Game Boy Color, o título poderia facilmente ser tratado como um simples bônus histórico. No entanto, Ghost Babel demonstra que a fórmula de Metal Gear funcionava mesmo sob enormes limitações técnicas.

Em vez de tentar reproduzir diretamente Metal Gear Solid em um portátil, o jogo desenvolve sua própria estrutura de infiltração, utilizando elementos clássicos da franquia como equipamentos, inimigos, chefes e exploração.

A experiência é obviamente muito mais simples do que a encontrada nos títulos tridimensionais, mas justamente por isso consegue apresentar uma versão extremamente concentrada da fórmula de Metal Gear.

Sua inclusão é um dos maiores acertos da coletânea. O único problema está na maneira como o jogo é apresentado. Ghost Babel poderia estar mais integrado ao restante do pacote, funcionando como parte de uma biblioteca histórica da franquia em vez de parecer um conteúdo separado.

Conteúdo extra poderia ser mais ambicioso

A Master Collection Vol. 2 também oferece uma quantidade considerável de material complementar, incluindo livros digitais, roteiros, trilha sonora e o banco de dados relacionado a MGS4.

O Metal Gear Solid 4 Database é especialmente interessante porque ajuda a contextualizar personagens, organizações e acontecimentos da extensa cronologia da franquia.

Para quem pretende revisitar a história completa de Metal Gear, esse conteúdo possui bastante valor. Porém, existe uma oportunidade perdida. Uma coleção responsável por recuperar MGS4 poderia ter ido muito além na preservação de materiais históricos. Entrevistas, making ofs, documentários e informações sobre o desenvolvimento do jogo seriam adições extremamente valiosas, principalmente considerando as dificuldades técnicas enfrentadas durante sua produção.

Os extras são bons, mas não chegam a transformar a Master Collection Vol. 2 em um verdadeiro arquivo histórico da franquia.

Português brasileiro facilita uma experiência extremamente narrativa

Outro ponto positivo está na localização. Metal Gear Solid 4 e Peace Walker contam com suporte a português brasileiro, algo especialmente importante para uma série tão dependente de diálogos e exposição narrativa.

Metal Gear possui uma quantidade enorme de conceitos, personagens, organizações e acontecimentos conectados. Conseguir acompanhar tudo isso em português torna a experiência muito mais acessível para o público brasileiro.

A limitação aparece novamente nos conteúdos complementares, que não recebem necessariamente o mesmo tratamento de localização das campanhas. Ainda assim, a presença do português nos jogos principais representa um avanço importante.

Uma evolução clara em relação ao primeiro volume

Comparada à primeira Master Collection, a segunda coletânea demonstra uma evolução principalmente na importância dos desafios que consegue resolver.

O primeiro volume já possuía enorme valor histórico ao reunir jogos fundamentais da franquia, mas MGS4 apresenta um problema completamente diferente. Não se tratava apenas de disponibilizar um jogo antigo em uma plataforma atual: era necessário transportar uma produção profundamente associada ao hardware do PlayStation 3.

Por isso, o sucesso técnico de MGS4 acaba sendo o maior argumento da coleção. A performance é consistente, os carregamentos foram reduzidos e a experiência permanece fiel ao jogo original. Não é uma reconstrução ambiciosa, mas é uma adaptação competente.

Veredito Final: Uma preservação necessária

Metal Gear Solid: Master Collection Vol. 2 é uma coleção que possui um objetivo muito mais importante do que simplesmente vender três jogos antigos novamente.

MGS4 finalmente deixa de ser um título preso ao PlayStation 3. Peace Walker ganha uma nova oportunidade de ser reconhecido como uma das experiências mais importantes para compreender a transição entre a era de Big Boss e The Phantom Pain. Ghost Babel, por sua vez, ressurge como uma excelente lembrança de que a história de Metal Gear vai muito além dos jogos mais conhecidos.

Existem falhas. A coleção poderia oferecer mais materiais históricos, apresentar seus conteúdos de maneira mais organizada e aproveitar a oportunidade para realizar melhorias adicionais em determinados elementos. Ainda assim, o essencial funciona.

Metal Gear Solid: Master Collection Vol. 2 não é uma coleção perfeita, mas é uma coleção extremamente importante. Seu maior mérito está justamente em recuperar um dos jogos mais inacessíveis da franquia e colocá-lo novamente nas mãos dos jogadores.

Depois de quase duas décadas, Metal Gear Solid 4 finalmente está livre do PlayStation 3. E para uma série tão preocupada com legado, memória e preservação quanto Metal Gear, talvez essa seja a melhor coisa que poderia ter acontecido.