Transformar Hellraiser em videogame exige mais do que reproduzir sangue e criaturas grotescas. Criada por Clive Barker, a franquia explora a relação entre dor, prazer e obsessão. Com a participação do próprio autor, Clive Barker’s Hellraiser: Revival, desenvolvido pela Saber Interactive, tenta levar essa identidade aos games.

Em vez de reinventar o survival horror, o jogo aposta em combate, exploração e gerenciamento de recursos. A ambientação perturbadora e os artefatos místicos ligados aos Cenobitas ajudam a estabelecer sua identidade, mas esses elementos não garantem, por si só, uma experiência marcante.

Pela primeira vez, Hellraiser ganha um jogo próprio de survival horror, com Pinhead e o universo de Clive Barker em uma experiência de sobrevivência em primeira pessoa. Mas será que o jogo faz jus ao legado da franquia? Confira a seguir em nossa análise.

A caixa. Você a abriu, nós viemos

A história de Hellraiser: Revival se passa cerca de 20 anos após os acontecimentos do primeiro filme e aproveita elementos de The Hellbound Heart e dos primeiros longas da franquia. Em vez de simplesmente reproduzir acontecimentos do cinema, o jogo apresenta uma trama inédita que amplia a presença do Labirinto e dos seguidores de Leviatã.

A aventura começa quando Aidan Lynch e sua namorada, Sunny, entram em contato com a Configuração da Gênese, uma caixa misteriosa capaz de invocar os Cenobitas. O encontro termina em tragédia, e Sunny acaba levada para o Labirinto. Desesperado para resgatá-la, Aidan aceita um pacto com Pinhead e mergulha em um mundo onde o sofrimento segue regras próprias.

A premissa combina com a identidade da franquia. A participação de Clive Barker ajuda a preservar temas como desejo, controle e obsessão, enquanto a narrativa apresenta situações inéditas. O jogo também evita depender exclusivamente do reconhecimento de personagens clássicos para sustentar sua história.

Aidan tem uma trajetória própria, e seu passado ajuda a contextualizar suas escolhas. Ainda assim, a relação com Sunny poderia receber mais desenvolvimento. Em alguns momentos, o roteiro não aprofunda o vínculo entre os dois na mesma medida em que utiliza esse relacionamento para impulsionar a jornada. Isso reduz parte do peso emocional de uma missão que depende justamente da urgência desse resgate.

A narrativa ganha força quando explora as contradições entre desejo, dependência e controle. Esses conflitos dão mais substância à campanha e evitam que ela se resuma a uma sequência de mortes violentas.

Pinhead continua sendo uma presença ameaçadora, enquanto o culto interessado nos Cenobitas acrescenta outra dimensão à perversidade desse universo. Embora nem todos os personagens recebam o mesmo espaço, esses elementos ajudam a ampliar a mitologia da franquia.

Outro aspecto importante está na representação do sadomasoquismo. O jogo apresenta práticas e ambientes extremos, mas não equipara automaticamente a comunidade BDSM aos cultistas violentos. Essa distinção é relevante em uma franquia que explora as fronteiras entre desejo, consentimento e abuso.

Vale também um alerta sobre o conteúdo. Nudez explícita, mutilações, violência intensa e temas sexuais aparecem com frequência. Esses elementos podem afastar quem prefere experiências de terror menos explícitas, mas estão alinhados à proposta da franquia.

A campanha dura cerca de 12 horas, mas oferece poucos incentivos para uma segunda partida. Um New Game Plus ou um modo roguelike ambientado no Labirinto poderia ampliar a longevidade e aproveitar melhor a mitologia da franquia.

Demônios para uns. Anjos para outros

Hellraiser: Revival segue uma estrutura familiar de survival horror, com exploração de ambientes interligados, recursos limitados e confrontos que exigem planejamento. O inventário restrito, os baús para armazenar itens e a comerciante que oferece equipamentos e melhorias lembram especialmente Resident Evil 4. A fórmula funciona, embora não seja particularmente original.

A campanha alterna furtividade e combate direto. Em algumas áreas, Aidan pode surpreender cultistas antes de ser detectado. Quando isso não funciona, é preciso recorrer às armas disponíveis e administrar munição e itens de cura. Essas escolhas ajudam a criar tensão, principalmente nos primeiros encontros.

O combate, porém, apresenta limitações. A movimentação dos inimigos pode parecer artificial, e os confrontos corpo a corpo nem sempre transmitem o impacto esperado. Além disso, o domínio das mecânicas e o desbloqueio de habilidades tornam algumas situações mais controláveis, reduzindo parte da pressão inicial. A base funciona, mas falta refinamento para que os confrontos acompanhem a qualidade da ambientação.

A Configuração da Gênese vai além de sua função narrativa e influencia diretamente a jogabilidade. Conforme Aidan avança, o artefato desbloqueia poderes sobrenaturais, como a capacidade de arremessar objetos pesados e cortantes contra os inimigos, manipular o fogo e utilizar correntes em ataques capazes de atingir vários adversários.

Essas habilidades também incentivam o uso do cenário. Barris explosivos, gasolina e outros objetos podem virar armadilhas, oferecendo alternativas ao uso convencional das armas. No Labirinto, o artefato ajuda a movimentar estruturas, alcançar caminhos e solucionar enigmas. Essa integração é um dos maiores acertos da Saber Interactive, pois transforma um símbolo central da franquia em uma mecânica relevante.

O potencial, entretanto, nem sempre é aproveitado. Algumas habilidades aparecem em situações específicas, enquanto outras poderiam receber aplicações mais variadas ao longo da campanha. A Configuração da Gênese diferencia o jogo de outros títulos do gênero, mas suas possibilidades poderiam ser exploradas com mais criatividade e consistência.

A exploração recompensa quem examina os cenários com atenção. Recursos, moedas e documentos ficam escondidos em armários e caminhos secundários, enquanto cartas, gravações e anotações ampliam o contexto da história e da mitologia dos Cenobitas. Esses detalhes oferecem conteúdo adicional para os fãs sem exigir que todas as informações sejam apresentadas nas cenas principais.

Os puzzles, por outro lado, raramente oferecem um grande desafio. Muitos dependem de encontrar senhas, localizar itens ou ativar mecanismos na ordem correta. A simplicidade mantém a progressão acessível, mas limita o potencial dos enigmas, especialmente nas áreas do Labirinto, onde a Configuração da Gênese poderia ser utilizada em desafios mais elaborados.

As perseguições são um dos pontos altos da campanha. Quando os Cenobitas obrigam Aidan a fugir por corredores desconhecidos, o jogo recupera a sensação de vulnerabilidade que caracteriza os melhores momentos do terror. O Chatterer se destaca como uma ameaça inquietante, e a necessidade de encontrar uma saída cria uma tensão que os combates convencionais nem sempre conseguem sustentar.

Apesar dos bons momentos, a familiaridade com os cenários reduz o impacto do terror ao longo da campanha. A repetição de estruturas de exploração e busca por itens também prejudica o ritmo, especialmente quando o jogo deixa de surpreender.

Hellraiser: Revival ten coisas incríveis para lhe mostrar

Visualmente, Clive Barker’s Hellraiser: Revival se destaca pela direção de arte. Ganchos, correntes, carne dilacerada e estruturas perturbadoras remetem diretamente aos pesadelos da franquia. A violência gráfica faz parte dessa identidade, mas é a construção dos cenários que ajuda a dar personalidade ao jogo.

A variedade de ambientes também mantém a exploração interessante. Clubes noturnos, áreas subterrâneas e espaços convencionais dão lugar às construções surreais do Labirinto, onde corredores e estruturas desafiam a lógica. Essa transição reforça o contraste entre o mundo dos vivos e o domínio dos Cenobitas.

Os personagens clássicos preservam uma aparência coerente com a obra original. O retorno de Doug Bradley como Pinhead reforça a ligação com os primeiros filmes e dá mais peso aos encontros com o Sacerdote do Inferno.

A apresentação técnica, entretanto, nem sempre acompanha a qualidade visual. Algumas animações de combate e movimentações de inimigos parecem rígidas, destoando dos cenários e dos modelos. Essas limitações ficam mais evidentes nos confrontos, quando os movimentos deveriam transmitir maior impacto.

O áudio também apresenta falhas pontuais, como problemas no posicionamento de vozes e efeitos sonoros, além de momentos em que o som desaparece. Em um jogo de terror, essas irregularidades podem prejudicar a identificação de ameaças e comprometer a imersão.

Apesar disso, o design de som contribui para a atmosfera. Ruídos distantes e efeitos associados aos Cenobitas criam desconforto mesmo quando não há uma ameaça visível. Nos melhores momentos, o jogo utiliza esses elementos para sugerir perigo, sem depender apenas de confrontos explícitos.

Devo comprar Clive Barker’s Hellraiser Revival?

Clive Barker’s Hellraiser: Revival respeita a identidade da franquia e transforma a mitologia dos Cenobitas em uma aventura de terror com personalidade. A direção de arte impressiona, a Configuração da Gênese conecta a história à jogabilidade e as perseguições no Labirinto entregam alguns dos momentos mais tensos da campanha.

O jogo, porém, apresenta limitações no combate, puzzles simples e perda de impacto ao longo da campanha. Animações rígidas e falhas pontuais de áudio também prejudicam um pouco a experiência. Ainda assim, Hellraiser: Revival merece a atenção dos fãs pela atmosfera e fidelidade à franquia, embora não revolucione o gênero.

Clive Barker's Hellraiser: Revival já está disponível para PlayStation 5, Xbox Series X|S, Nintendo Switch 2 e PC.

*O Cromossomo Nerd agradece a Saber Interactive por fornecer uma chave de PS5 para esta análise.