Zack Snyder é idolatrado por muitos fãs de filmes de super-heróis, e chegou a até mesmo ser "carinhosamente" apelidado de "Snydeus", mas será que a idolatria e a fama do diretor são merecidas?
Neste artigo dividido em duas partes, iremos fazer um raio-x completo na carreira do diretor e de suas abordagens duvidosas para os personagens da DC Comics nos cinemas. Não temos como objetivo desmerecer os méritos de Snyder, apenas apresentar fatos concretos sobre como a perspectiva dele para os personagens pode ser errônea e ter acarretado no insucesso de filmes como Batman vs Superman e Liga da Justiça.
Antes de mais nada, devemos ressaltar que, assim como Francis Lawrence, Snyder começou sua carreira cinematográfica como diretor de videoclipes e comerciais de TV, e ao longo dos anos, chegou ao almejado posto de diretor em Hollywood.
O falso Deus

Começando em 2004, com o remake do clássico filme de terror Madrugada dos Mortos, Snyder buscou dar uma nova roupagem ao icônico trabalho de George Romero. Depois de um filme razoavelmente bem-sucedido, Snyder lançou seu nome para o estrelato, e passou a assumir produções cada vez maiores.
Foi com 300 que Snyder realmente marcou seu nome em Hollywood e chamou a atenção dos estúdios e dos fãs de quadrinhos. Com um orçamento de produção de cerca de US$ 65 milhões, o longa arrecadou impressionantes US$ 456 milhões mundialmente.

Antes de passarmos para os próximos filmes do diretor, temos de fazer um breve relato sobre como funciona a indústria de arrecadação dos cinemas.
Em 2017, Rob Cain, colunista da Forbes, consultor financeiro de filmes e antigo executivo de cinemas, fez um artigo sobre a arrecadação desastrosa de Liga da Justiça, e forneceu algumas informações interessantes sobre a indústria do cinema.
Em seu artigo, Cain considerava um orçamento de produção de cerca de US$ 300 milhões, e mais US$ 150 milhões usados para promover o longa (eventos, cartazes, trailers, divulgação em TV e rádio e etc), dito isso, temos um orçamento de US$ 450 milhões para um filme que arrecadou mundialmente US$ 657 milhões. Você pode achar que foi o suficiente para que o estúdio cobrisse os gastos e ainda tivesse lucro, mas não é assim que as coisas funcionam.
Cain explica que desses US$657 milhões, a Warner Bros. fica com cerca de 52% dos lucros da bilheteria doméstica, e uma média de 38% do lucro vindo de países estrangeiros (sendo 25% do total de US$106 milhões na China, e 42% dos demais países ao redor do mundo).
Isso daria uma média de $258 milhões em lucros de cinema que entram para os cofres da Warner Bros. Mas parte desse lucro ainda precisa ser repassada para outras pessoas.
Ele estima um lucro mundial para lançamentos domésticos (DVD e Blu-Ray), incluindo plataformas de streaming e vendas online, como US$170 milhões. Isso equivale à 55% do valor de US$310 milhões feitos por Vingadores: Era de Ultron no mesmo mercado, além de 45% dos lucros mundiais de US$1.4 bilhões feitos pela equipe. Revendedoras mundiais de TV devem fazer cerca de US$100 milhões. A estimativa de vendas de produtos promocionais é algo complicado, pois as vendas de produtos licenciados das franquias Batman, Superman e Mulher-Maravilha geram cerca de US$800 milhões à US$1 bilhão anualmente, levando cerca de US$100 milhões anualmente para a Warner Bros, então não é possível prever quanto o filme gerou de lucros em produtos licenciados, se é que Justice League gerou algum lucro.
Além disso, o estúdio possui taxas de anúncios e publicidades, o que poderia ser cerca de US$30 milhões indo para a Warner Bros.
Se pegarmos os lucros domésticos somados aos lucros do mercado doméstico, TV e taxas, teríamos algo em torno de $558 milhões indo para a Warner Bros. Contra isso, deduzimos os custos de US$300 milhões usados para promover o filme, US$150 milhões do marketing, US$60 milhões para os custos de lançamentos domésticos ao redor do mundo, US$20 milhões para direitos autorais, US$20 milhões em empréstimos, algo em torno de, US$50 milhões em participações de lucros para os diretores, produtores, artistas e outros. Pessoas como Zack Snyder, Ben Affleck e o produtor Chuck Roven não custam barato. Cain afirma que uma de suas fontes disse que as participações de lucro em Liga da Justiça não seriam pagas até que o filme tivesse batido a meta de lucros, mas não pode confirmar, por isso, manteve o valor de US$50 milhões no cálculo.
Custo Estimado da produção: US$600 milhões. Deduza isso dos $558 milhões em lucros do estúdio, e temos um prejuízo de US$42 milhões.

Essa explicação toda é necessária, pois esse não é o primeiro filme em que o diretor deu prejuízos para o estúdio.
Watchmen, um dos filmes mais idolatrados pelos fãs de Snyder, foi um fracasso absoluto, onde se teve um custo de produção de cerca de US$130 milhões, e arrecadou-se mundialmente apenas US$185 milhões. O caso se repete com a animação A Lenda dos Guardiões, que custou cerca de US$ 80 milhões e arrecadou mundialmente cerca de US$ 140 milhões.

Sucker Punch: Mundo Surreal, seja talvez seu pior fracasso, arrecadando míseros US$ 89 milhões para um filme que custou US$ 82 milhões. Embora O Homem de Aço e Batman vs Superman: A Origem da Justiça tenham feito lucros mais expressivos, os longas sequer chegaram perto do verdadeiro poder comercial dos personagens, e se considerarmos todos os custos usados no cálculo de lucros de Liga da Justiça, veríamos que a arrecadação dos filmes com os dois maiores super-heróis da DC foi no mínimo irrisória.

A análise continua na página seguinte com o Superman do DCEU.
O Superman de Snyder

Muitos fãs de Snyder argumentam que o Superman foi humanizado por ele nos cinemas, o que simplesmente não é verdade. A raiz do problema, que também podemos usar para demonstrar a diferença da visão de Snyder para os quadrinhos, é o personagem Jonathan Kent.
Em Alienígena Americano (2015), uma história com uma visão mais realista para o personagem, podemos ver Jonathan dizendo para seu filho que ser estranho é uma coisa boa, até tentando treinar seu filho para usar os poderes. Jonathan, em todas as versões, é um personagem que deseja o melhor para seu filho, mas que também o criou dizendo que ele deve usar seus poderes para o bem maior.
Em Superman Fuga do Mundo Bizarro (2008), Jonathan insiste que seu filho deve salvar até mesmo aquele mundo.
Agora, no DCEU, Snyder nos dá um Jonathan “realista”, que acha que talvez seu filho "talvez devesse deixar crianças morrerem". Isso é completamente contra o personagem, Jonathan é talvez o verdadeiro personagem mais deturpado do DCEU e mostra claramente como Snyder não entende o material que está usando.

"Talvez"
Se a relação entre Clark e seu pai nos quadrinhos tivesse de ser resumida, ela simplesmente seria definida como “um pai com orgulho do filho e desejando que ele faça seu melhor, e um filho que quer fazer o que é certo sempre”, mas o mesmo não pode ser dito sobre os personagens no DCEU, podendo defini-los como “um pai que deseja que seu filho se esconda, e um filho que não sabe o que fazer”. Snyder foi, literalmente, o mais longe possível do mais básico.
Alienígena Americano é uma história realista e "pé no chão", vemos Clark indo à festas, bebendo e outras coisas do tipo, coisas normais de hoje em dia. Ele também tem problemas de relacionamento com Lois, o vemos com seus amigos, conversando como pessoas normais. Nessa história, Clark faz tudo que uma pessoa normal faz atualmente. Enquanto na versão de Snyder, ele apenas viaja pelo mundo e usa seus poderes de forma temerosa. O que soa mais humano para você? Um homem que sai viajando pelo mundo sozinho para "se encontrar", e que sempre foi reprimido pelo pai por ser diferente, ou um homem trabalhando, indo em festas, tendo problemas com a namorada, conversando com seus amigos no fim de semana e etc?

A história usada de exemplo é amada por todos os fãs do personagem, considerada por muitos uma das melhores histórias já feitas para o Superman, provando que os verdadeiros fãs do personagem não têm problema nenhum com uma abordagem mais humana e realista, desde que feita da maneira correta
Em uma entrevista para o Wall Street Journal em 2016, Snyder diz "Eu sinto que [os fãs do Superman] estavam levando pro lado pessoal o fato de que eu estava tentando amadurecer seu personagem", o que não é verdade, o problema dos fãs é o fato do personagem que eles tanto amam sequer estarem ali para começo de conversa.
Em outra entrevista, dessa vez ao podcast Hall of Justice, Snyder afirma "Se você é um fã de quadrinhos, você sabe que não mudei o Superman ", o que é outro problema.
O Superman canônico é confiante, feliz com sua vida, feliz pelo fato de poder ajudar as pessoas, feliz por viver na terra, tendo total noção do quanto o mundo pode ser sombrio, mas que ainda escolhe erguer a cabeça e continuar acreditando no melhor. Já o Superman de Snyder, vê sua vida como uma maldição, ele nunca parece ser grato por poder ajudar as pessoas.
Muitos fãs de Snyder acham inapropriado o Superman sorrir e ser positivo, porém existe um motivo para isso. O Superman age de tal forma nos quadrinhos para passar confiança, para que as pessoas em situações de apuros pensem nele como alguém que pode resolver os problemas, para que sintam essa confiança, para que sintam que o perigo acabou. Ele não sorri para zombar dos problemas, e sim para mostrar que ele esta aqui para resolvê-los.
Outro fator negativo no Superman do DCEU, é um mundo dividido, algumas pessoas gostam do herói, mas grande maioria o odeia, e temos Luthor bolando planos contra o Superman. Em Superman As Quatro Estações (1998) temos uma situação parecida, Clark até considera desistir, ele sai da cidade por um tempo, volta para SmallVille e fica alguns dias lá, com sua família. Porém, ele continua ativo como Superman ali e volta para a cidade grande por decisão própria.
Em Quatro Estações, sua família e Lana o apoiam em ser o Superman, eles o lembram que não importa o que as pessoas pensem dele, o importante é ele acreditar no que faz. Já no DCEU, sua mãe diz que ele "não deve nada às pessoas", e ele prefere se isolar nas montanhas, sem fazer nada, e só volta quando sua namorada esta em perigo.

O Superman de Snyder não é o Superman canônico, não é uma versão mais realista do Superman nem nada. Os problemas dele envolvem se sentir mal porque as pessoas não gostam dele, mesmo com ele as salvando, isso não é um problema humano, é um problema que um Deus teria. Ele também consegue a garota sem dificuldade nenhuma.
Os problemas do Superman dos quadrinhos geralmente envolvem ser excluído na escola, ouvir colegas de trabalho falando mal dele, não conseguir falar direito com a Lois quando não está usando a capa e o brasão do S. São problemas que nós, pessoas normais, podemos nos identificar. O Superman dos quadrinhos sempre foi humano, mas Zack Snyder nunca entendeu isso.
Todo quadrinho tem momentos marcantes, esses momentos possuem uma casca e uma alma. A alma é o tom, o contexto, o motivo de determinada situação estar acontecendo, e como isso afeta os personagens envolvidos. A casca é apenas a estética, personagem usando roupa x, estando em posição y, o fator menos relevante de um momento especial em um gibi. Quando um fã lê uma história e se apaixona pelo que viu, ele se refere à alma contida na história. Snyder apenas busca adaptar as cascas, sempre perdendo a alma, por isso ele não consegue criar um Superman que agrade os fãs do personagem e que seja coerente na história.
Se você perguntar a um fã do Superman porque Para o Alto e Avante (2004) é bom, por exemplo, vão explicar como a história estabelece que, até mesmo sem poderes, o Superman ainda ajudaria as pessoas, ainda lutaria pelo que é certo, ainda seria o mesmo homem e personagem que gostamos. Ninguém nunca vai dizer “porque ele soca o vilão no final”.

Agora, por Snyder, temos um Superman que, mesmo com poderes, não sabe se quer ou se deve ajudar os outros.
Agora, um detalhe curioso, Snyder afirma em um artigo da Forbes (2014) que o Superman mata. O que não é mentira, o Superman possui versões onde ele mata. Porém, o diretor fala de uma maneira como se assassinato fosse algo normal para o personagem “se você analisar a versão dos quadrinhos, ele matou, ele fez todo tipo de coisa” , mas, filma a cena dele matando pela primeira vez no DCEU como se fosse algo super importante, e fala de sua versão como uma versão mais madura do personagem. Ou seja, uma hora o diretor afirma que sua versão não é diferente do Superman canônico (quando é conveniente para o mesmo), na outra, ele diz que está amadurecendo o personagem. Snyder não sabe o que está fazendo ou pra onde está indo, literalmente.
Na história Breaking Point (2017), temos o Exterminador pressionando o Superman para matar, para o leitor, isso automaticamente é grande coisa, pois é o Superman canônico ali, o que sabemos que já foi estabelecido há muito tempo que ele não deve matar, então temos uma tensão natural. Já no DCEU, antes do Superman matar o Zod, não foi estabelecido um código moral, e como temos um diretor que (às vezes) afirma que sua versão é mais madura, naquele contexto, matar não deveria ter tanta importância para o Superman, apenas ali, segundos antes de matar, ele é o Superman canônico e matar é grande coisa.

É um tanto difícil falar do Snyder, pois ele mesmo não sabe falar sobre seus trabalhos.
O que ele quer fazer, ou ao menos o que achamos que ele quer, é uma versão realista das coisas, e é “louvado” por essa visão, mas, isso não é nada de especial. Todas as histórias específicas citadas até aqui mostram o Superman de forma realista, a visão de Snyder não é especial ou única, é apenas uma versão malfeita e indecisa de muitas coisas melhores já feitas no passado e presente dos personagens da DC.
A conclusão que chegamos é que Snyder tentou se aproveitar do sucesso alcançado por Christopher Nolan, que nos apresentou uma incrível versão mais realista do Batman em sua trilogia cinematográfica, e tentou mesclar isso no Superman para que um universo maior fosse criado, porém ele acabou se esquecendo de que o Batman de Nolan não funcionaria com personagens superpoderosos, e acabou tendo nas mãos apenas uma versão deturpada do Superman.
Artigo escrito em parceria com Higor Hebert.
